Quem sou? Se um forte a sustentar o mundo Se um fraco a aguentar calado Se um divino a arrebatar estranhos Se um humano a simular naufrágio Sou quase estrangeiro em meu ninho Sou quase limite em desaforo Se caio, reponho-me em resistência Nos pés em areia me desfaço em perdição Se sofro, alieno-me em histórias As mesmas que me perdem em solidão Quem sou? Se não a compostura lírica do homem Se não o sal da terra do divino O ostracismo convicto do descaso O progressismo racional do que vejo Não sou o perfeito O revelado martírio sublinha o heroísmo O consternado afago rejeita o abraço Não sou o descarte O fino traço vai ao ponto de fuga O andar eterno dissimula em círculos Quem sou? À beira do abismo, alcanço os sonhos em voo À beira mar, descubro a pele do engodo No alto da colina se tem uma rima No chão que piso há a ponta da caneta E a centelha que imagino límpida Acende a fogueira que me deixa em brasa E me arrasa, e me maltrata, e me arde E me transforma em exagero E me leva além do que desejo Na distopia, no cárcere e no devaneio
Tag: escrita criativa
Heróis
Meus heróis me fazem voar
Estender os braços
Esquecer os passos
Saltar sem laços
E tocar os céus
Livre e destemido
Sem destino
Como um fino desenho
Em um papel
Jamais
Nunca antes
Nem porém
Nem parte de
Nem onde além
Jamais provindo
Relicário místico
Que redime o ardor
Com elevado torpor
Penumbra
Avanço à penumbra crua
Da luz de pouca intensidade
E profunda
Sou o zelo do meu terror
O medo seguro é meu motor
E saio como raio
Sedendo enjoos
Avistando telhados
Suprimindo risos
Reflexos Tardios
Reflexos tardios Movimentos repetitivos Nada se cria, em mitos No imprevisto, tudo se transforma E no fim do dia Quando a tempestade limpa a cidade Destacando o brilho Onde antes era impureza Realçando a bondade Em casa gesto de avareza Os homens saem às ruas de cara lavada Prontos para usarem novos colírios De velhas fuligens Retardos críveis Movimentos sombrios Nada na vida são ventos Tudo na vida são novos moinhos E os homens se mostram eventos de pura sorte Fazendo o pó em farinha De novas almas famintas Pois o hoje é o dia De outras noites mal dormidas O vago do lado alto da rua Não mais assusta Ainda é cedo quando se madruga E o vinho seco que desce à goela Ainda é a fome que amarela Tão nobre de fina lembrança Tão pobre em vero semelhança Aí se faz Aqui se paga E o gosto ácido de um dia amargo Contrasta em tanto Com a doce mentira da esperança